BRASIL: UMA PANELA DE PRESSÃO (OU ESTAMOS PERDIDOS)

O QUE ACONTECERÁ QUANDO A PANELA DE PRESSÃO EXPLODIR?

(SEM) INSPIRAÇÃO

HOJE ACORDEI INSPIRADO. MAS ACHO QUE EXPIREI.

SOBRE SER CULTO

A VIDA NÃO SE RESUME AO FACEBOOK.

A REVOLUÇÃO DOS MACACOS

SOMOS TODOS MACACOS, ALGUNS MAIS MACACOS QUE OUTROS.

NU

HOJE ME DEU VONTADE DE ESTAR NU.

01 março 2017

Pintaram tudo de cinza

Dia 1° de março de 2017

Aqui aconteceu um carnaval. Eu juro! Havia um carnaval aqui!

Eu sei, é difícil de acreditar. Não consigo lhe dizer onde estão todos, mas isso aqui estava lotado, meu senhor. Estou lhe falando... isso aqui estava abarrotado de gente.

Não, meu senhor. Estavam todos felizes. Quase todos, pelo menos. Claro que deve ter acontecido um ou outro problema, uma ou outra briga. Mas, assim, no geral, a regra era dançar, beijar, beber e se divertir.

Dá, dá pra reconhecer os foliões pela roupa sim. O que? Se eles usavam algum tipo de uniforme? É sério que o senhor não conhece o carnaval? Não, me desculpe... não quis dizer isso. Concordo, ninguém é obrigado a conhecer o carnaval. Não quis lhe ofender. Mas, assim... uniforme ninguém usava não. A regra da roupa era bem ao contrário da de um uniforme, sabe? Tem alguma palavra que seja o contrário de uniforme? Poi é, eu também não conheço. Mas se houver, isso seria uma boa definição da roupa deles.

Se era cinza? Não, não. Era tudo bem colorido. Por isso o meu espanto, entende? Não sei quem vandalizou a cidade. Juro que não fui eu. Por mim ainda estaria tudo colorido.

Eu tô é frustrado. Eu achava que não ia acabar, sabe? Desde sexta-feira que todo mundo se diverte. Isso mesmo, eu não tô maluco não, meu senhor! Foi sexta, sábado, domingo, segunda, terça... aí hoje eu saio pra rua super empolgado, e nada. Quase saí pra rua de saia, senhor acredita? Imagina o vexame.


Não, né! É claro que não uso saia no meu dia-a-dia. Mas é que assim... quando tem homem de saia em todo canto, usar ela parece normal, entende? É como na Escócia. O senhor sabe que lá os homens usam saia como se fosse calça jeans, não sabe? Pois, então. Homem usar saia foi normal por cinco dias aqui. Eu juro! Mas agora tô vendo que não é normal mais não. Não sei também quem proibiu o uso dela hoje. Mas, pelo visto, tá proibido sim. Só mulheres podem usar saia agora. Ou tá vendo algum homem usando uma? Tô achando que quase tudo tá proibido de novo. Homem de saia, mulher de roupa curta, faltar do trabalho, ouvir música alta, ser feliz. Mas o que mais me deixou chateado foi a proibição das cores. Sinceramente? Nunca vi uma quarta-feira tão cinza. Não sei quem terminou o carnaval, mas peço que o senhor, seu guarda, prenda o responsável por vandalizar nossa alegria.

29 janeiro 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 2)

O DIA EM QUE OS INCAS VENCERAM OS ESPANHÓIS

Dia 29 de janeiro de 2017

Quem me conhece sabe o quanto sou apaixonado por xadrez. Não necessariamente pelo jogo em si. Claro que ele é interessante. Eu é que não sou um bom jogador. Me atraio na verdade por suas peças. É impossível não parar em frente às lojas de tabacarias de shopping centers sem olhar para aqueles tabuleiros dos mais variados formatos e materiais, um mais lindo que o outro, um mais caro que o outro. E eu sempre sem dinheiro mas sempre repetindo mentalmente: um dia compro um desses!

Eu acredito muito em energias e no poder que elas têm em nossas vidas.Comprar um xadrez desses bem estilizados era um pensamento que eu tinha já há algum tempo. Já a viagem para o Chile, Bolívia e Peru, não. Ela se tornou um sonho para mim durante a própria viagem. Nos vendem Europa e EUA como que jogos de xadrez feitos de cristal em vitrines de tabacarias. Esses locais são, provavelmente, lindos. Um dia hei de visitá-los, assim como um dia terei delicados e belos reis, rainhas e peões de cristal expostos em minha mesa de jantar. Mas, assim como não existem apenas jogos de xadrez em cristal, também não existe apenas o chamado "primeiro mundo" para se visitar.

Santiago - Chile
O Chile, minha primeira parada, foi uma grata surpresa. Sua capital Santiago é sete vezes maior que Campinas, e, ao mesmo tempo, sete vezes menos insana. Claro que a cidade que o turista enxerga nunca é a mesma cidade dos moradores do local. Mas o stress de lá é, aparentemente, menos estressante. No horário de pico o trânsito anda. No metrô, quando cheio, as pessoas esperavam o próximo ao invés de se acotovelarem. As notas de dinheiro, sempre com quatro dígitos ou mais, nos dá a sensação sempre falsa de ter mais dinheiro do que realmente temos. isso, claro, até a primeira compra, sempre de, no mínimo, três dígitos. O tempo, seco, é o oposto de seu povo, acolhedor. As paisagens possuem neve, deserto, montanhas, praias, frio e calor. É possível conhecer um Chile por dia.
Salar Uyuni - Bolívia
A Bolívia possui o Salar Uyuni. Apenas por essa paisagem o passeio todo já valeu a pena. Existem outros belos lugares  no país, como as lagunas, os geysers, as ilhas e o Lago Titicaca. Mas nenhum outro se compara à visão mágica do céu se espelhando no chão. Além de Uyuni, outras cidades visitadas por nós foi La Paz e Copacabana. A primeira tem seu charme, mas a combinação altitude, poluição e falta de árvores não me fez bem. A segunda nos fez sentir em casa, não só pelo nome familiar, mas também pela bela paisagem do maior lago navegável do mundo, o Titicaca. A Bolívia no geral é um país peculiar. Eles mantém suas raízes bastante fortes, seja na música, nas vestimentas ou na forma quase improvisada que algumas coisas funcionam. Dos três, foi na Bolívia onde o choque cultural realmente apareceu. E, com o diferente, as comparações com seu país de origem e até mesmo os preconceitos aparecem de forma involuntária. Julgamentos sobre beleza física daqueles com o fenótipo do qual não estamos acostumados vem à tona. O questionamento se nossa bagagem colocada no ônibus sem identificação irá estar no mesmo lugar ao final da viagem aparece. O medo do barco aparentemente não tão seguro naufragar também surge. E, no final, tudo funcionou, ainda que num processo e com procedimentos diferentes do que seria em nosso país. Outra coisa curiosa é que no país de Evo Morales cagar é um desafio. Há um verdadeiro comércio de banheiros imundos e sem torneiras ou papel higiênico pelas cidades. Paga-se um ou dois bolivianos (aproximadamente de R$0,50 a R$ 1,00) para entrar neles. A dica é levar seu próprio rolo e um álcool em gel. Não tenha dúvidas de que eles serão de grande utilidade.

Ilha Taquile - Peru
Por fim, o Peru foi uma grata surpresa. Mais precisamente a cidade de Puno, a única do país que visitamos, mas certamente não será a última. Além de experiências inesquecíveis nas visitas que fizemos nas ilhas peruanas do Titicaca, a cidade nos recebeu com uma festa que nos lembrou bastante o carnaval de rua brasileiro. Além disso, outra grata surpresa foi encontrar e comprar o meu suvenir preferido de toda essa viagem: um jogo de xadrez com peças que faziam referência às tropas espanholas e aos guerreiros incas. Por uma grana bem menor do que nas tabacarias brasileiras, hoje tenho um jogo para expor em minha casa. Não em cristal, mas em madeira. E, mais do que um xadrez belo mas ordinário, toda vez que olho para ele me lembro dos 20 dias em que vivi uma das experiências mais inesquecíveis da minha vida. A primeira batalha ocorreu ainda em Puno. Mudando a história, o exército inca se saiu vencedor. Para minha sorte, o Rafael, meu oponente, é um jogador mais fraco que eu. Azar para os espanhóis. Mas, melhor do que mudar a história, foi ver um pouco do resultado da história nesses três belos, diferentes e exóticos países de nosso continente.

Jogo de xadrez Incas x Espanhois
Outros Textos:

Parte 1

28 janeiro 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 1)

Países visitados: Chile, Bolívia e Peru
Duração da viagem: 20 dias
Integrantes do mochilão: Eu (Danilo) e Rafael
Idiomas falados na viagem: Português, Portuñol (Português + Espanhol), Portuliano (Português + Italiano) e Inglês
Tempo de planejamento: aproximadamente 3 meses
Tipos de lugares visitados: Cidades grandes e urbanas, cidades pequenas, lagos, rios, deserto, montanhas, geysers, águas termais, ilhas e tribos
É preciso ser rico para viajar: NÃO!


PRAZER, DESERTO

Dia 28 de janeiro de 2017


Era o sétimo dia de viagem. Mas lá, ao contrário dos outros tantos momentos incríveis que já tive o privilégio de viver, as horas passavam devagar. Talvez fosse devido à paisagem quase monocromática que eu via há provavelmente mais de 10 horas seguidas pelas janelas do ônibus. Um marrom quase alaranjado. Ora montanhas, outrora nem isso. Sem sinal algum dos verdes tão visíveis das terras tupiniquins. Era uma paisagem muito diferente daquela que estive acostumado a enxergar no Brasil. Mas não era de forma alguma uma visão intimidadora ou tediosa. Aquela paisagem não fez com que eu me sentisse um forasteiro. Ao contrário. Uma estranha sensação de pertencimento me atingia. O deserto do Atacama, localizado na parte norte do Chile e, até então, um completo desconhecido para mim, me recebia de braços abertos. Isso, claro, considerando a terra quase infinita e um Sol intenso como um grande afago de ternura. E era. Ao menos para mim.

Ao meu lado, Rafael dormia. Eu, sentado na poltrona próxima da janela, ouvia músicas enquanto olhava para a imensidão do deserto, quase como numa meditação. De repente, o modo aleatório do meu playlist me tirou do transe num dos momentos mais simbólicos de toda a viagem.

"Gracias a la vida que me ha dado tanto..."                 (Graças à vida que me deu tanto)

A argentina Mercedes Sosa invadia meus ouvidos, cantando a música mais emblemática de uma das maiores compositoras folclóricas da América Latina: a chilena Violeta Parra. 

"Me dio dos luceros que cuando los abro                     (Me deu dois olhos que quando os abro
Perfecto distingo lo negro del blanco..."                      Distingo perfeitamente o preto do branco...)

Nesse momento me senti latino, algo tão distante de nós, brasileiros. Ainda que ouvindo uma música de um idioma que não é o meu, e que não domino, eu também pertencia àquele lugar.

"(...)Gracias a la vida que me ha dado tanto              ((...) Graças à vida que me deu tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario                        Me deu o som e o abecedário 
Con él, las palabras que pienso y declaro                  Com ele, as palavras que penso e declaro
Madre, amigo, hermano                                             Mãe, amigo, irmão
Y luz alumbrando la ruta del alma del que                E luz clareando o caminho da alma de quem 
estoy amando"                                                            estou amando)

Em pleno Atacama, uma lágrima teimou a descer dos meus olhos, como se uma gota pudesse umedecer o deserto mais árido do mundo. Mas aquela paisagem, somada à trilha sonora perfeita e uma sensação de liberdade foi uma das sensações mais fortes que já havia sentido.

"Minha casa está presa à vários balões, sendo possível tornar o meu lar em qualquer lugar" (Gabriel Feitosa)
Valle de la Luna

Dentro do ônibus se falava vários idiomas. Estranhamente, como eu e Rafael pudemos constatar e como virou quase uma regra em todos os três países que visitamos, havia turistas brancos de todas as formas e cores. Negros quase inexistentes. Dentre os de pele clara, um casal de japonês bastante exótico. Curiosamente, o ônibus foi o primeiro lugar que os encontramos. Mas não o último. Durante  todo o resto do nosso percurso pelo Chile e praticamente toda nossa vigem pela Bolívia, nós sempre cruzávamos com esse casal. É impressionante como viagens proporcionam encontros anônimos. Nunca trocamos uma palavra com eles. Não sabemos seus nomes, se realmente são japoneses ou de algum outro país oriental. E nunca descobriremos. Mas compartilhamos os mesmos ambientes e as mesmas paisagens.

Conheci tanta gente de tantos lugares, pessoas que se tornaram amigos verdadeiros ainda que por apenas alguns dias, e que nem barreira do idioma e nem a barreira cultural impediram de haver mais que comunicação, empatia. Certamente, quem faz guerra nunca viajou. Por isso, a arte e a viagem são as duas coisas mais próximas do humano que eu, humano, conheço. São  linguagens universais. Talvez existam outras. E, se existir, me falem.

Nas próximas semanas escreverei aqui no blog o roteiro exato da viagem, como alguns vem me pedindo. Roteiro em ordem cronológica, e não um texto que já se inicia falando sobre o sétimo dia de viagem. Mas as sensações são tão voláteis e inexatas, que achei que a urgência maior era essa. Mais que músicas, trilhas sonoras para sua viagem. Mais que lugares, sentimentos. Mais que culinárias, paladar.  Afinal, literatura combina tão bem com viagens, não é mesmo?

29 novembro 2016

A tragédia pontual e a tragédia cotidiana

Dia 29 de novembro de 2016

O Brasil, assim como o futebol mundial, está de luto. A queda do avião que levava a delegação da equipe da Chapecoense tirou a vida de jogadores, membros da comissão técnica, da equipe de voo, de jornalistas e de convidados. Sobre este fato, nada mais pode ser acrescentado por esta página a não ser o nosso lamento profundo à todas as vítimas e aos familiares que sofreram a perda. Uma grande tragédia pontual que, assim como outras, causou e causa grande comoção em todos nós.

Há uma grande diferença entre este tipo de tragédia com as do nosso cotidiano. Milhares de pessoas morrem diariamente devido à vários motivos, incluindo algumas tragédias sociais, como fome e violência. A morte, num sentido filosófico, é a mesma. Mas por que, então, uma ganha manchetes e a outra não?

Não podemos desconsiderar que a mídia pauta nossas conversas. Tragédias que envolvem jogadores, artistas, apresentadores e outros agentes midiáticos repercutem porque eles entram em nossa casa, conversam conosco através das várias plataformas e nos criam empatia. Sua morte inesperada nos causa emoções. A tragédia cotidiana é diferente. Só conseguimos vê-la se a percebermos; não são mortes lidas com emoção, mas sim com a razão. E, é claro, há sempre o interesse de que ela não seja percebida por nós. A cotidiana faz parte do status quo; a outra, é um ponto fora da curva.

Hoje, no dia do acidente aéreo que vitimou cerca de 75 pessoas, vi algumas pessoas postando em suas redes sociais sobre a ausência de postagens homenageando as vítimas das tragédias cotidianas, ao invés de apenas textos e imagens da tragédia da Chapecoense. É preciso entender que somos seres emocionais, não somente racionais. Não é só a televisão ou a mídia que causa essa comoção. Cada membro da grande massa - onde, obviamente, estou incluído - que já viajou de avião pensa consigo mesmo que poderia ter sido ele. A grande massa que gosta de futebol pensa que "poderia ser meu time". As pessoas que, assim como eu, são formadas em jornalismo, também têm esse pensamento. Quantos lados e visões individuais desse mesmo fato? Acidentes comovem também porque nos tiram da zona de conforto e nos fazem pensar a respeito do maior tabu da humanidade: a morte, a sua e a do outro.

As críticas à essa comoção em massa podem ser lógicas até certo ponto, mas talvez a lógica não caiba em todos os momentos da vida. A dor é de cada um. Pensar nos problemas estruturais e sociais da humanidade não te impede de ter empatia com esse acidente aéreo, com as histórias individuais dessas vítimas e a  história do time de futebol que surgiu do nada e conquistou a América do Sul. E, no caso contrário, se comover com essa tragédia não te impede de hoje, amanhã ou na próxima semana visitar uma ONG, um hospital, ou ser voluntário em algum projeto social. Se você já faz isso, parabéns! Se não faz, mas critica o outro que se comoveu com o acidente, amanhã é um novo dia para abandonar a hipocrisia. E é sempre bom lembrar que Facebook e redes sociais não mudam o mundo.

Emoções são subjetivas, logo imensuráveis. Lamentamos tragédias pontuais como esta  porque elas têm rostos, vídeos e mídia. Já em relação às tragédias cotidianas, ainda que houvesse - e, às vezes, há - rostos, vídeos e mídia, o que verdadeiramente importa é a nossa ação. O primeiro é uma tragédia de fato. O outro, um problema estrutural, que não se modificará com longos e rasos textos de Facebook. Ao que não pode ser transformado, como é o caso desse acidente, nos resta um respeitoso luto. Ao que deve ser transformado, nos resta a ação. Só as nossas atitudes transformam o mundo. 

26 novembro 2016

Apesar de oscilante, 3%, da Netflix, é uma evolução para séries de ficção científica do Brasil

Dia 26 de novembro de 2016


Eu esperei por muito tempo para assistir ao 3%. Mais precisamente 5 anos. Para quem não sabe, antes de ser lançada pelo Netflix, a nova série de ficção científica brasileira foi lançada de forma independente no YouTube e, desde então, atraído a atenção dos internautas, com aproximadamente 650 mil visualizações na plataforma. Porém, sem recursos, parou no terceiro episódio. E, desde então, o criador Pedro Aguilera tentou suporte financeiro para a realização completa dessa história promissora. Até a Netflix comprar a ideia.

A história se passa num mundo pós-apocalíptico, onde 97% da população vive na extrema pobreza em um lugar conhecido popularmente como o "lado de cá". Já o restante, a elite da sociedade, moram na lendária Maralto, o "lado de lá", onde, supostamente, existe apenas bonança, felicidade e alta tecnologia. Para a massa excluída há apenas uma esperança para viver no "lado de lá": participar e vencer o processo de seleção. Todos eles, ao completarem 20 anos, podem se inscrever, mas apenas 3% deles conseguem a tão sonhada mudança de vida, abandonando todo o seu passado para uma "vida melhor". Aos perdedores, a certeza de que nada mudará.

A primeira ótima sensação que tive foi ver uma série com essa temática com uma qualidade de fotografia e edição comparável às produções de fora, e atores, conhecidos ou não do grande público, falando completamente em português em uma série da Netflix. Em um segundo momento, a trilha sonora é uma grata surpresa, em especial no início do terceiro episódio, quando começa a tocar "Mulher do fim do mundo", da insuperável Elza Soares. E, por fim, num terceiro, quando você percebe que os desafios pelos quais os personagens são submetidos, por mais estranhos e surreais que se pareçam, são apenas hipérboles dos nossos próprios desafios cotidianos, como entrevistas de emprego ou obrigações sociais.

O roteiro, intrigante, possui personagens com várias camadas. A fotografia, já mencionada antes, merece todo reconhecimento. Outro destaque é a grande diversidade de atores, com homens e  mulheres, negros, brancos e orientais, além de um personagem cadeirante Fernando (Michel Gomes) como um dos protagonistas. Além de Gomes, vale destacar também as atuações de Bianda Comparato (Michele), da fantástica Vaneza Oliveira (Joana) e também da presença marcante de Viviane Porto (Aline).

Entretanto, não espere por uma série perfeita. As superproduções da Netflix estão anos-luz à frente de sua irmã brasileira no que se diz respeito à estrutura, especialmente em relação à cenários, já que o futuro de alta tecnologia, por muitas vezes, não parece tão futurístico assim. Mas há de se reconhecer que eles conseguiram, de forma criativa, ao menos amenizar esse problema.

O pecado da série seja, talvez, a forma caricatural como algumas coisas são mostradas. A pobreza do "lado de cá" é um tanto forçada, especialmente quando se repara nos figurinos dos figurantes, quase todos remendados de forma pouco convincente e com cores excessivas. O elenco também tem seus problemas. Alguns figurantes não possuem naturalidade em frente às câmeras. O ator João Miguel (Ezequiel) tem atuações oscilantes, e, por vezes, não convence tanto como o líder do processo. Já Rodolfo Valente, que interpreta o personagem Rafael, começa a série de forma um pouco forçada (talvez até mais por culpa do roteiro que por sua própria atuação), mas se recupera a medida que seu personagem vai ganhando mais complexidade. E, com oito episódios, o 5º, sobre o passado de Ezequiel, é bastante arrastado.

Apesar das oscilações, 3% termina muito bem, além de ser uma série que consegue dialogar com o público, especialmente nos 3 episódios finais, e tem como mérito nos fazer pensar a respeito de nossa própria realidade, em especial sobre a política, religião, status quo e, principalmente, a tão amada e odiada meritocracia.

O grande mérito de 3% é ter grandes chances de conseguir o que a global Supermax não alcançou: um futuro promissor.

16 setembro 2016

Hoje me reconheci feliz

Dia 16 de setembro de 2016

Hoje me reconheci feliz
logo após ter visto a tristeza naquele homem que há tanto tempo não via.

Hoje me reconheci feliz.
Seus olhos estavam fundos, perdidos, sem vida e cansados.

Hoje me reconheci feliz.
Sua pele queimada e manchada, e a postura curvada de quem parece ter todo o peso no mundo em seus ombros.

Hoje me reconheci feliz.
Ele parecia estar voltando de um trabalho que não gosta, para uma casa que não chama de lar, para uma família que não escolheria como sua.

Hoje me reconheci feliz.
De alguma forma, aquele corpo semi-morto, ao cruzar meu caminho por acaso, me fez reconhecer a minha própria felicidade. Uma felicidade que, de tão rotineira, se fez tímida.

Hoje me reconheci feliz.

09 setembro 2016

Analisamos o figurino de Michel Temer na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos

Dia 9 de setembro de 2016


A presença do presidente interino Michel Temer na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos ecoou dentro do Maracanã. Uma mensagem direta foi transmitida a todos os presentes e a todos os  espectadores por seu figurino.

O terno puxado para um tom escuro de um azul sóbrio, mostra que o novo comandante da nação não bebeu para comparecer à cerimônia. Assinado por algum estilista que nunca saberemos o nome, ele estava muito bem alinhado a seu corpo não-curvilíneo.

A escolha pelo terno de cor uniforme faz uma alusão à situação econômica do povo brasileiro, já que, assim como a vestimenta, os brasileiros também estão lisos. Nossos analistas de moda nos informaram que mensagens tão diretas como esta são capazes de trazer uma identificação rápida com a população média do país. As vaias que ecoaram não foram direcionadas para Temer, mas sim uma autocrítica dos próprios brasileiros em relação a sua histórica cultura de não trabalharem e só pensarem em crise.

A visível calvície, que nos fala que há ainda um vasto espaço para o país crescer, aliada aos cabelos puxados totalmente para trás, mostrando que não há mais como o país andar para trás, potencializam o discurso contra a recessão.

A camisa branca em conjunto com a gravata de um tom próximo ao rosa ou lilás é, talvez, a mensagem mais importante de todo o figurino: um pedido de paz às mulheres feministas e aos grupos LGBT's, que já se posicionaram quase em unanimidade contra seu governo. Note também que ele não utilizou em seu look nenhum detalhe em verde e amarelo, evidenciando que a partir de agora ele pretende se distanciar simbolicamente dos grupos que encabeçaram o "Fora Dilma".

Seu traje tradicional também é um aviso à economia de que em seu governo não haverá movimentos ousados, de modo que os empresários podem esperar dele atitudes mais conservadoras.

Por fim, seu discurso foi propositalmente curto, uma alusão à situação econômica do país, que sairá da recessão tão rápido quanto seu discurso de abertura das Paralimpíadas. É também uma mensagem de saúde pública, já que, pela velocidade, foi inspirada na voz da frase "Esse medicamente é contra-indicado em caso de suspeita de dengue".

Não estamos falando de um presidente. Não mesmo. Ele é um ícone da moda.